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A Razão da Loucura
na Obra de Machado de Assis
Marco Alexandre de Oliveira
“a cousa é divertida e vale
a pena –
talvez monótona, mas vale a pena”
Machado de Assis
I. A Razão e a Loucura
Entre os vários temas abordados por Machado de Assis na sua extensa
e monumental produção literária, destaca-se o da
loucura humana, que “está presente em vários dos
seus contos e romances” (Moisés 137). Alguns personagens
notáveis que exemplificam esta tendência à demência
incluem Simão Bacamarte de “O Alienista”, Rubião
de Quincas Borba, e o próprio Quincas Borba do romance
homônimo e de Memórias Póstumas de Brás
Cubas. Ao aprofundar as dimensões psíquicas da personalidade
e do pensamento desses e de outros personagens relevantes, Machado consegue
ilustrar particularidades curiosas entre os homens (e mulheres) que
dificilmente se explicam, e que implicam a persistência do mistério
diante das pretensões da ciência do então século
XIX. Esta “preocupação da análise psicológica”,
tão característica na obra de Machado, é fruto
de uma “intenção racional de compreender o mundo”
(Coutinho 161), essa realidade sócio-cultural em que vivemos,
essencialmente composta por diversos indivíduos e suas inúmeras
ações realizadas ao longo da história.
Ao desejar formular uma compreensão do mundo, Machado de Assis
demonstra simultaneamente uma preocupação complementar
em expor a razão, com talvez o único fim de questioná-la
através da sua contraposição com a loucura. No
entanto, é o próprio discurso da razão que qualifica
a loucura, que ao mesmo tempo – e por sua vez – desafia
qualquer objetivação. Surge então o problema da
subjetivação do discurso que delimita a razão e
a loucura, impossibilitando qualquer resolução definitiva.
Cria-se entre ambos os conceitos uma íntima relação
ambígua, fonte de inspiração e alvo analítico
do olhar criativo e crítico de Machado de Assis.
O que afinal leva os personagens machadianos à loucura, a cair
no “abismo” (Senna 75) do absurdo? Será que o caminho
à demência é desvio, ou até resultado, da
busca resoluta pela razão absoluta, perfeita, e inequívoca?
Uma releitura das obras em questão pode, ao comparar a trajetória
do desenvolvimento psicológico dos personagens, sugerir que é
sempre a busca do inatingível, do impossível
ao fugaz, que desencadeia um processo de decadência psicológica
que os conduz da razão à loucura. Entretanto, revela-se
que o próprio delírio em si, como vivenciado por Brás
Cubas, pode oferecer a visão mais lúcida e racional da
existência e experiência humana ao longo dos séculos.
A partir desta interpretação esclarecedora, verificaremos
uma certa inversão de significados entre os conceitos de razão
e loucura, sábio e demente.
II. A Loucura da Razão
O crítico Luis Costa Lima, após esboçar a predominância
absoluta da ciência e do poder político em “O Alienista”,
acaba por afirmar que “o tema central” é de fato
a questão: “que é afinal a loucura?” (Lima
261). O personagem principal, o ilustre médico Simão Bacamarte,
resolve situar-se na pequena vila de Itaguaí para se dedicar
exclusivamente aos dignos estudos da ciência. Logo se empenha
em uma tarefa que acaba por destruí-lo, o desafio de “estudar
profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os
casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio
universal” (“Alienista” 42). Projeto irrealizável
desde o princípio, a experiência serviu mais para gerar
confusão acerca do “fenômeno” da loucura do
que garantir qualquer cura, efetivamente problematizando o discurso
da ciência e da razão em si durante o percurso do grande
fracasso do médico. Personagem caricaturesco e portador da voz
simbólica da medicina vigente na época (Secchin 25), Simão
Bacamarte se interna por ser o único verdadeiro louco na vila
de Itaguaí, ao demonstrar características demasiadamente
racionais.
Interessante seria percorrer o processo que conduz o médico a
essa auto-análise culminante e conclusiva. Ao embarcar no seu
projeto, começa por defini-lo: “a loucura, objeto dos meus
estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão;
começo a suspeitar que é um continente” (“Alienista”
49). Longe de desistir da sua proposta inicial devido ao tamanho e à
dificuldade, ele chega a fundar os preliminares da sua teoria ao demarcar
“definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão
é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí
insânia, insânia, e só insânia” (“Alienista”
50). Resultado certamente imprevisto pela tal teoria implicava afinal
que “tudo era loucura”, uma vez que constava de um ideal
sem comprovantes. Itaguaí se esvaziava enquanto a Casa Verde
enchia de pessoas supostamente em pleno juízo, e “não
se sabia já quem era são e quem estava doido” (“Alienista”
59).
Com o edifício monumental da ciência inabalado pela “alegação
de que não havia regra para a completa sanidade mental”
(“Alienista” 74), o médico inesperadamente inverte
a sua teoria ao declarar sua “convicção de que a
verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto
que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das
faculdades, e como hipóteses patológicos todos os casos
em que aquele equilíbrio fosse interrupto” (“Alienista”
74). Como era extremamente fácil desabilitar o equilíbrio
mental, mesmo dos supostos “mentecaptos”, novamente não
havia quem comprovasse a sua teoria totalitária, senão
ele, o próprio Simão Bacamarte. O narrador nos concede
que ele “achou em si os característicos do perfeito equilíbrio
mental e moral” e que “pareceu-lhe que possuía [.
. .] todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto”
– “a sagacidade, a paciência, a perseverança,
a tolerância, a veracidade, a lealdade” (“Alienista”
85). Há decerto um toque de ironia quando se conta que “alguns
chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além
dele, em Itaguaí” (“Alienista” 86).
Enquanto personagem, Simão Bacamarte exemplifica a relação
ambígua, estreita, e paradoxal entre a razão e a loucura;
a sua caracterização vacila sempre entre a do sábio
e a do louco, tanto pelas observações do narrador, quanto
pela perspectiva de outros personagens e o povo em geral. Dificilmente
se atribuiria sinceridade às qualidades retratadas do médico
sem a marca tingida de ironia evidente, porque o propósito do
narrador é suspeito desde o início. Ao basear sua narrativa
na informação recolhida de várias crônicas
supostamente históricas – embora provavelmente fictícias
– o narrador machadiano de “O Alienista” apresenta
traços antecipadores da metaficção historiográfica,
ao reconstruir o passado através do imaginário. Simão
Bacamarte é então diretamente caracterizado como um sábio
(“o maior dos médicos”, “um alto espírito,
um varão nobre”, um “gênio”, “um
grande homem austero”) cuja vocação é cuidar
da “saúde da alma [. . .] a ocupação mais
digno do médico” (“Alienista” 40). No entanto,
ao longo da história há vários indícios
indiretos que contradizem essa personificação dissimuladora.
Quando surge a idéia da Casa Verde, constata-se que “a
idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu
em si mesma um sintoma de demência [. . .]” (“Alienista”
40). Outros até refletem que “isso de estudar sempre, sempre,
não é bom, vira o juízo” (“Alienista”
40) ou concluem que a teoria de Simão Bacamarte “era uma
obra absurda” (“Alienista” 50), a ponto de indagar
desesperadamente: “quem nos afirma que o alienado não é
o alienista?”(“Alienista” 62). Finalmente o próprio
médico, na sua condição de sábio, descobre
a sua loucura através da auto-análise, e ao formular sua
“doutrina nova” conclui que reúne em si mesmo “a
teoria e a prática” (“Alienista” 86).
A experiência de Simão Bacamarte serve para ilustrar a
incapacidade de definir os limites entre a razão e a loucura,
ou de classificá-los sequer individualmente. O seu resultado
aponta para a impossibilidade de estabelecer qualquer ciência
exata e completa baseada apenas no discurso racional. É evidente
que “a loucura de Bacamarte é a loucura da ciência
e esta consiste em ignorar seus possíveis limites e suas efetivas
articulações” (Lima 265). Acrescenta-se que o nosso
sábio-louco sofre da “ânsia de fixação
e de univocidade [. . .] no desejo de atingir um único alvo:
a Verdade universal e imutável, descontaminada das paixões
e da contingência humana” (Secchin 25). O Alienista não
consegue cumprir o propósito, como não cabe ao seu discurso
realizá-lo, e afinal ele enlouquece pela sua “razão
excessiva” (Secchin 28) e morre “sem ter podido alcançar
nada” (“Alienista” 86).
O romance Quincas Borba apresenta dois casos em que a loucura
resulta de uma preocupação obsessiva com um objetivo inviável.
O personagem Quincas Borba, enquanto prega o discurso da razão
absoluta, sonha em fundar um sistema de filosofia suprema. O seu ingênuo
discípulo e herdeiro Rubião, enquanto procura assimilar-se
à sociedade burguesa e urbana do Rio de Janeiro, ilude-se com
a grandeza imaginada. Ambos se caracterizam pela megalomania sem limites
e pelo discurso irracional, e acabam domados pela demência. O
filósofo acaba por acreditar que é a encarnação
de Santo Agostinho, enquanto o burguês proclama que é o
próprio Napoleão III. Ao longo da história, aliás,
se torna cada vez mais evidente que Rubião herdou mais do que
o dinheiro e os bens do mestre; ao receber o cão homônimo
Quincas Borba, ele é simbolicamente perseguido pelo espírito
finado do outro, até sucumbir à sandice também.
Uma leitura de Quincas Borba não deve ser feita sem
considerar primeiro o romance Memórias Póstumas de
Brás Cubas. O próprio narrador no Capítulo
IV nos adverte que o personagem “Quincas Borba, se acaso me fizeste
o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás
Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência,
que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia”
(Borba 16). Esta filosofia, como sabemos, nomeia-se “Humanitismo”
e pretende desvendar a verdade absoluta e a razão última
da existência humana. Uma leitura deliberadamente redutora de Quincas Borba poderia nos afirmar que a história serve
como esboço e desdobramento da própria teoria de “Humanitas”
na sua manifestação sócio-histórica. Tanto
os personagens quanto a ação exemplificam as tendências
prefigurados na filosofia, e o que era antes mera abstração
torna-se evidente na prática. Como mesmo declara o narrador,
ao tentar comprovar com uma história que “as catástrofes
são úteis, e até necessárias”:
Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em
criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma
choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher,
- chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão
quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu
a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
— É minha, sim, seu senhor; é tudo
o que eu possuía neste mundo.
— Dá-me então licença que acenda ali o meu
charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto
original; não é preciso estar embriagado para acender
um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! - Chamava-se
Chagas. - Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos
essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo,
faz render o mal aos outros; não contando o respeito que aquele
bêbado tinha ao princípio da propriedade, - a ponto de
não acender o charuto sem pedir licença à dona
das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!
(Borba 109-10)
Assim, através dessa anedota irônica, o egoísmo
e a indiferença são leis imutáveis e imanentes
da natureza e da sociedade burguesa carioca da época.
Enquanto personagem principal, Rubião apresenta aspectos de uma
trajetória paralela com a de seu mestre. Como Quincas Borba,
é “herdeiro inopinado” e chega a ser “mendigo”.
O cão figura como único amigo verdadeiro de ambos, mesmo
que Rubião o despreze. É significante que ele também
desenvolve sintomas de demência no percurso da vida, por motivos
análogos. Vítima de uma sociedade em que quase todas as
relações se fundam em interesses econômicos ou políticos,
ele não escapa da mediocridade e superficialidade evidentes nesta
mesma sociedade, ao demonstrar características de personalidade
duvidáveis. O que mais liga Rubião ao Quincas Borba, seja
filósofo ou cachorro, é a herança e não
a amizade. Rubião, aliás, nunca chega a amar ninguém,
uma vez que a sua ingênua paixão pela Sofia não
é atendida, o que a torna um objeto de desejo irrealizável.
Essa “loucura da paixão desesperada” é possivelmente
a “raiz do caso de Rubião, que, inteiramente perdido de
amor por Sofia [. . .] desintegra-se num processo de loucura cujo traço
dominante é a megalomania” (Senna 89). Como se isso não
bastasse para explicar a condição sofrida dele, acrescentam-se
outros fatores quando se diz que “a loucura [. . .] implica o
abandono e a indiferença dos ‘amigos’” (Senna
75). Certamente é pela convergência desses fatores enumerados
com outros menos esclarecidos que se dão a demência e eventual
miséria de Rubião.
A loucura de Rubião aproxima a de Quincas Borba por uma analogia
estreita e simbólica. Como a trajetória da vida de ambos
apresenta algumas semelhanças indiscutíveis, apesar das
diferenças óbvias, resta-nos dar um pequeno salto para
reparar que um fica “louco” por uma Sofia enquanto
o outro perde o juízo por uma filo-Sofia! Para chegar
a essa conclusão, é preciso levar em conta que os nomes
dos personagens de muitos autores célebres nem sempre são
gratuitos; carregam em si um ou vários significados, às
vezes óbvios, outras vezes ocultos, ou até mesmo inesperados.
Esta interpretação, entretanto, é puramente extra-textual,
e tanto baseia-se quanto resolve-se numa leitura extremamente determinista
– e, portanto, limitada – que confere ao romance Quincas
Borba o papel de mero esboço ou experiência prática
da filosofia abstrata do “Humanitismo”.
O legado problemático do “Humanitismo” se deve inteiramente
a intrigante figura de Quincas Borba, personagem preeminente na obra
de Machado de Assis. Nos dois romances aos quais ele pertence, é
ironicamente retratado como grande sábio que aos poucos cede
a sua razão edificante à demência decadente. Como
Rubião, a loucura dele em parte consiste de uma megalomania quase
sem limites, uma vez que Quincas Borba se declara “o melhor homem
do mundo” por formular a sua filosofia verdadeira que é,
segundo ele, “o remate das coisas” (Borba 19).
Desde seu princípio, o “Humanitismo” pretende ser
o “sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas”
(Cubas 247) enquanto “há de ser também
uma religião, a do futuro, a única verdadeira” (Cubas 303). A partir daí expõe-se uma doutrina repleta de teorias
e postulados que, embora simulem reflexões metafísicas
através de um discurso aparentemente racional, revelam-se absolutamente
absurdos e sem fundamento lógico, pelo menos dentro das convenções
estabelecidas e prefiguradas pela sociedade vigente da época.
Como explica Quincas Borba, a filosofia de “Humanitismo”
vem do conceito de “Humanitas, princípio das cousas”
(Cubas 211). Acrescenta-se que:
Humanitas é o princípio. Há nas
coisas todas certa substância recôndita e idêntica,
um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível
e indestrutível [. . .] essa substância ou verdade, esse
princípio indestrutível é o que é Humanitas.
Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é homem.
(Borba 19)
Em outras palavras resume-se que “Humanitas
[. . .] o princípio das cousas, não é outro senão
o mesmo homem repartido por todos os homens.” (Cubas 247). O “defunto autor” Brás Cubas nos afirma que
Quincas Borba concedeu uma influência direta da filosofia hindu
ao declarar que “o Humanitismo ligava-se ao Bramanismo, a saber,
na distribuição dos homens pelas diferentes partes do
corpo de Humanitas” (Cubas 248). Tanto Brás Cubas
quanto o narrador mais tradicional de Quincas Borba mencionam
a sua admiração obsessiva por Pangloss, que afinal “não
era tão tolo como o supôs Voltaire” (Cubas 306). Este, como se sabe, é uma caricatura do filósofo
Spinoza, que idealizava o melhor dos mundos possíveis. No entanto,
cabia ao crítico perspicaz determinar que o “Humanitismo”
de algum modo satirizava o Positivismo de Augusto Comte, numa “verdadeira
caricatura” dele. Acrescenta-se que:
O próprio nome de Humanitismo, com a sua concepção
de Humânitas, lembra imediatamente a Religião da Humanidade
de Comte e a hipóstase de uma Humanidade em si, acima dos homens,
de que essa religião decorre. Nem é menos esclarecedora
a circunstância do Humanitismo não ser apenas uma filosofia,
mas além disto, ou antes, sobretudo, uma religião [. .
.] (Câmara Jr. 99)
Tanto Comte quanto Quincas Borba sucumbiram
à demência ao ultrapassar os limites da suas respectivas
filosofias. Como acrescenta Câmara, o filósofo francês
“enlouquecera nos últimos anos, e dessa loucura é
que teria resultado a política e religião positivista,
como uma excrescência do sistema filosófico em si”
(101). O mesmo destino sucedeu ao nosso Quincas Borba, que levou a sua
exaltada razão à beira do absurdo.
O “Humanitismo” de Quincas Borba é um projeto irrealizável
e uma filosofia inconcebível, uma vez que pretende alcançar
a verdade absoluta e a perfeição humana puramente através
das aspirações ilusórias de um discurso supra-racional
e, portanto, fundamentalmente ilógico. Por ser demasiadamente
ambicioso, implica em si uma obsessão excessiva que impulsiona
seu propagador aos limites da razão e da sandice. Como diz o
filósofo, seu “trabalho, fruto de longo estudo” é
“um novo sistema de filosofia, que [. . .] explica e descreve
a origem e a consumação das cousas” (Cubas 210), ao mesmo tempo que “retifica o espírito humano, suprime
a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória (Cubas 211)”. O “monumento” (Cubas 211) filosófico,
entretanto, antes implica a exposição do absurdo que a
culminação da razão. Algumas das conclusões
prefiguradas pelo discurso emblemático são desconcertantes
e bastante equivocadas:
esta filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres
da vida [. . .] a frugalidade podia indicar certa tendência para
o asceticismo, o que era a expressão acabada da tolice humana.
(Cubas 236)
nota que eu não faço do homem
um simples veículo de Humanitas; não ele é ao mesmo
tempo veículo, cocheiro, e passageiro; ele é o próprio
Humanitas reduzido; daí a necessidade de adorar-se a si próprio.
(Cubas 249)
Sendo cada homem uma redução
de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente
oposto a outro homem, quaisquer que sejam as aparências contrárias.
(Cubas 249)
[. . .] sendo a luta a grande função
do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os
mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja
é uma virtude. (Cubas 250)
A dor, segundo o Humanitismo, é
uma pura ilusão [. . .] uma vez que o homem se compenetre bem
de que ele é o próprio Humanitas, não tem mais
do que remontar o pensamento à substância original para
obstar qualquer sensação dolorosa. (Cubas 251)
O problema do discurso absolutista de Quincas
Borba é justamente que excede os limites da razão ao sonhar
em formular “a verdade e a felicidade” inequívocas
e perfeitas.. Os argumentos constam de silogismos e presunções
que sempre contradizem, e até agridem, o senso comum e a ordem
racional estabelecida. A partir das suas deduções evidentemente
irracionais, conclui-se que a pseudo-lógica empregada é,
resumindo, logicamente absurda, e tanto indica como incita
à loucura do suposto filósofo.
Há certo momento nas Memórias
Póstumas de Brás Cubas em que o defunto-autor relata
uma cena de frustração e desilusão com o “Humanitismo”
do seu mestre e amigo. Ao interromper uma discussão entre ambos,
Brás Cubas exclama resolutamente: “Vai para o diabo com
o teu Humanitismo [. . .] estou farto de filosofias que me não
levam a cousa nenhuma”(Cubas 279). Esta reação
inesperada oferece talvez a melhor observação relativa
ao sistema de filosofia altamente inútil e ineficaz de Quincas
Borba. Esta crítica, porém, problematiza a caracterização
do personagem ao longo do romance pelo mesmo Brás Cubas enquanto
narrador, que em determinado ponto adverte: “Deus me livre de
contar a história do Quincas Borba [. . .] uma história
longa, complicada, mas interessante” (236). Não é
difícil detectar um tom de ironia, por exemplo, quando considera
o “grãozinho de sandice” (Cubas 300) que
aflige o amigo filósofo. O narrador revela que “era impossível
crer que um homem tão profundo chegasse à demência”
(Cubas 302) Mais tarde admira que “não só
estava louco, mas sabia que estava louco [. . .] era ainda uma prova
de Humanitas, que assim brincava consigo mesmo” (Cubas 306). A ironia e o cinismo dissimulados do “defunto autor”
Brás Cubas conseguem, deste modo, desafiar qualquer tentativa
de determinar o sentimento verdadeiro que ele guardava pelo velho mestre,
apesar das evidências freqüentes de um sarcasmo delirante
ao longo da narrativa.
III. A Razão da Loucura
A figura de Brás Cubas, enquanto narrador e personagem, é
bastante curiosa e merece destaque particular. Não há
nada que lhe indique qualquer tendência à demência
ou característica da loucura como apresentam outros personagens
machadianos. Nenhum sintoma de patologia cerebral, nenhum sinal da perda
de juízo ou de sanidade mental. O monumental romance Memórias
Póstumas de Brás Cubas que esse “defunto autor”
escreve, longe de apresentar ilusões ou visões idealistas,
revela uma sensibilidade consciente da sua desilusão e realismo.
O narrador desde cedo adverte:
[. . .] importa dizer que este livro é escrito
com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século,
obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora
austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destrói,
não inflama nem regala, e é todavia mais do que passatempo
e menos do que apostolado. (Cubas 16)
É conseqüentemente essa relativização
do método e da significância da sua obra literária
que a distingue da ciência de Simão Bacamarte e da filosofia
de Quincas Borba. Somente poderia-se dizer que, ao morrer da obsessão
pela sua “idéia fixa”, sofre um destino semelhante
aos outros, ao embarcar num projeto irrealizável. O nomeado “emplasto
Brás Cubas” pretendia ser “um medicamento sublime,
um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica
humanidade” (Cubas 12). O propósito em si era
demasiadamente pretensioso para ser levado a sério, e apesar
do narrador assegurar que essa “idéia grandiosa e útil”
era a “causa” da sua morte, duvidamos que a confissão
seja sincera e acreditável. Ainda mais quando lembramos do fato
dele ter morrido de pneumonia, o que era inteiramente comum na época.
É justamente no leito da morte de Brás Cubas onde se passa
talvez a cena mais fantástica em toda a obra machadiana. “O
Delírio” do Capítulo VII torna-se episódio
significante e espetacular por apresentar “sob a forma de alucinação
de um personagem” o relato “talvez mais denso em termos
de reflexão filosófica” do romance que, em si mesmo,
“pode ser compreendido como uma expansão e diversificação
de núcleos temáticos propostos, sob a forma explícita
ou implícita, no diálogo e no subseqüente desfile
dos séculos” (Almeida 80). Acrescenta-se que “neste
texto aparece esboçada [. . .] uma verdadeira síntese
filosófica do pessimismo de Machado de Assis (Almeida 83). Este
“pessimismo radical” se dá por uma ironia que transforma-se
“em uma maneira de ver e sentir o mundo, um mundo habitado por
contradições insolúveis, no qual todos, o ironista
inclusive, estão inescapavelmente inseridos” (Almeida 80).
Daí vêm a “falta de sentido da existência”
e o “absurdo irremediável da condição humana”
(Almeida 81), temas que perpassam a narrativa inteira e afligem Brás
Cubas, que não se alivia com a antitética filosofia de
Quincas Borba. Convêm ressaltar que, como “um complexo altamente
irônico jogo de espelhos, os motivos filosóficos do delírio
vão se articular com outro conjunto de motivos, igualmente de
ordem filosófica,” quando se refere ao “Humanitismo”
(Almeida 83).
É, portanto, altamente irônico que o episódio do
delírio apresenta a visão mais lúcida e racional
da existência e experiência humana. Ao defrontar-se com
a própria Natureza, que também se chama Pandora, Brás
Cubas protesta que ela é “absurda [. . .] uma fábula”
(Cubas 27). No entanto ela procede a desvendar a sua lei principal,
o egoísmo, ao dizer, numa bela alusão ao evolucionismo:
“Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo,
conservação [. . .] eis o estatuto universal” (Cubas 27). Em seguida lhe mostra “uma redação dos séculos,
e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões,
o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios,
a destruição recíproca dos seres e das cousas”
(Cubas 28). Ao acrescentar que a experiência toda não
passava de uma alucinação reveladora, relata-se como:
Os séculos desfilavam num turbilhão, e,
não obstante, porque os olhos do delírio são outros,
eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias
– , desde essa cousa que se chama glória até essa
outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria,
e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça
[. . .] a cólera [. . .] a inveja [. . .] a ambição
[. . .] a fome [. . .] a vaidade [. . .] a melancolia [. . .] a riqueza
[. . .] o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até
destruí-lo, como um farrapo. Eram as várias formas de
um mal [. . .]. (Cubas 29)
Talvez a observação mais
significante acerca do ser humano trata da mesma busca do inatingível
que destina tantos personagens, inclusive o narrador, ao fracasso:
Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante
da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva,
feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável,
outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com
a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos
que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se
apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela
ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. (Cubas
30)
Finalmente, durante um momento culminante da alucinação,
o “grito de angústia” do espectador se transforma
curiosamente em um “riso descompassado e idiota” (Cubas 30). Diante do “espetáculo” da vida e do mundo Brás
Cubas torna-se estoicamente “tranquilo e resoluto,” ou até
talvez “alegre” (Cubas 31). Assim formula uma perspectiva
menos pessimista – quase consoladora – em que se resolvem
o problema de todas as épocas, e a história da História:
Cada século trazia a sua porção
de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e
o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões
[. . .]. (Cubas 31)
IV. A Loucura e a Razão
Machado de Assis consegue problematizar
os conceitos da razão e loucura ao questionar os próprios
limites entre um e o outro. Ele até inverte as relações
entre ambos ao contrapor uma razão absurda com uma loucura racional.
O sábio assim vira demente, e o louco se torna lúcido.
Ou em outras palavras, a lógica sem fundamento pode encaminhar
à loucura, enquanto o irracional profundo pode levar à
razão. Os personagens machadianos são ambíguos
e apresentam ambas as possibilidades simultaneamente. Machado também
demonstra como qualquer subjetivação de discursos impossibilita
a objetividade. A Razão e a Ciência não são
capazes de formular absolutos, que permanecem fora dos seus alcances.
Há mistérios da existência humana que não
se revelam senão através do sonho e do delírio.
E talvez justifique-se esta postura do homem diante da sua experiência
individual e vivência social: a do cinismo humorístico
com que Machado de Assis cria suas realidades imaginárias, frutos
de uma imaginação real.
*publicado originalmente em Espelho:
Revista Machadiana 8/9 (2006), 81-96.
Bibliografia:
Almeida, José Maurício Gomes
de. “A Visão Irônica nas Memórias Póstumas
de Brás Cubas”. Estudos de Literatura Brasileira. Número
Especial Nº 4. Rio de Janeiro : Faculdade de Letras/UFRJ,sd. 79-86
Assis, Machado de. Memórias
Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro :
Expressão e Cultura, 2001.
--- “O Alienista”. Contos
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