A Razão da Loucura na Obra de Machado de Assis

Marco Alexandre de Oliveira

 

“a cousa é divertida e vale a pena –
talvez monótona, mas vale a pena”

Machado de Assis

 

I. A Razão e a Loucura

 


Entre os vários temas abordados por Machado de Assis na sua extensa e monumental produção literária, destaca-se o da loucura humana, que “está presente em vários dos seus contos e romances” (Moisés 137). Alguns personagens notáveis que exemplificam esta tendência à demência incluem Simão Bacamarte de “O Alienista”, Rubião de Quincas Borba, e o próprio Quincas Borba do romance homônimo e de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao aprofundar as dimensões psíquicas da personalidade e do pensamento desses e de outros personagens relevantes, Machado consegue ilustrar particularidades curiosas entre os homens (e mulheres) que dificilmente se explicam, e que implicam a persistência do mistério diante das pretensões da ciência do então século XIX. Esta “preocupação da análise psicológica”, tão característica na obra de Machado, é fruto de uma “intenção racional de compreender o mundo” (Coutinho 161), essa realidade sócio-cultural em que vivemos, essencialmente composta por diversos indivíduos e suas inúmeras ações realizadas ao longo da história.


Ao desejar formular uma compreensão do mundo, Machado de Assis demonstra simultaneamente uma preocupação complementar em expor a razão, com talvez o único fim de questioná-la através da sua contraposição com a loucura. No entanto, é o próprio discurso da razão que qualifica a loucura, que ao mesmo tempo – e por sua vez – desafia qualquer objetivação. Surge então o problema da subjetivação do discurso que delimita a razão e a loucura, impossibilitando qualquer resolução definitiva. Cria-se entre ambos os conceitos uma íntima relação ambígua, fonte de inspiração e alvo analítico do olhar criativo e crítico de Machado de Assis.


O que afinal leva os personagens machadianos à loucura, a cair no “abismo” (Senna 75) do absurdo? Será que o caminho à demência é desvio, ou até resultado, da busca resoluta pela razão absoluta, perfeita, e inequívoca? Uma releitura das obras em questão pode, ao comparar a trajetória do desenvolvimento psicológico dos personagens, sugerir que é sempre a busca do inatingível, do impossível ao fugaz, que desencadeia um processo de decadência psicológica que os conduz da razão à loucura. Entretanto, revela-se que o próprio delírio em si, como vivenciado por Brás Cubas, pode oferecer a visão mais lúcida e racional da existência e experiência humana ao longo dos séculos. A partir desta interpretação esclarecedora, verificaremos uma certa inversão de significados entre os conceitos de razão e loucura, sábio e demente.

 


II. A Loucura da Razão

 


O crítico Luis Costa Lima, após esboçar a predominância absoluta da ciência e do poder político em “O Alienista”, acaba por afirmar que “o tema central” é de fato a questão: “que é afinal a loucura?” (Lima 261). O personagem principal, o ilustre médico Simão Bacamarte, resolve situar-se na pequena vila de Itaguaí para se dedicar exclusivamente aos dignos estudos da ciência. Logo se empenha em uma tarefa que acaba por destruí-lo, o desafio de “estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal” (“Alienista” 42). Projeto irrealizável desde o princípio, a experiência serviu mais para gerar confusão acerca do “fenômeno” da loucura do que garantir qualquer cura, efetivamente problematizando o discurso da ciência e da razão em si durante o percurso do grande fracasso do médico. Personagem caricaturesco e portador da voz simbólica da medicina vigente na época (Secchin 25), Simão Bacamarte se interna por ser o único verdadeiro louco na vila de Itaguaí, ao demonstrar características demasiadamente racionais.


Interessante seria percorrer o processo que conduz o médico a essa auto-análise culminante e conclusiva. Ao embarcar no seu projeto, começa por defini-lo: “a loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente” (“Alienista” 49). Longe de desistir da sua proposta inicial devido ao tamanho e à dificuldade, ele chega a fundar os preliminares da sua teoria ao demarcar “definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia” (“Alienista” 50). Resultado certamente imprevisto pela tal teoria implicava afinal que “tudo era loucura”, uma vez que constava de um ideal sem comprovantes. Itaguaí se esvaziava enquanto a Casa Verde enchia de pessoas supostamente em pleno juízo, e “não se sabia já quem era são e quem estava doido” (“Alienista” 59).


Com o edifício monumental da ciência inabalado pela “alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental” (“Alienista” 74), o médico inesperadamente inverte a sua teoria ao declarar sua “convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicos todos os casos em que aquele equilíbrio fosse interrupto” (“Alienista” 74). Como era extremamente fácil desabilitar o equilíbrio mental, mesmo dos supostos “mentecaptos”, novamente não havia quem comprovasse a sua teoria totalitária, senão ele, o próprio Simão Bacamarte. O narrador nos concede que ele “achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral” e que “pareceu-lhe que possuía [. . .] todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto” – “a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, a lealdade” (“Alienista” 85). Há decerto um toque de ironia quando se conta que “alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí” (“Alienista” 86).


Enquanto personagem, Simão Bacamarte exemplifica a relação ambígua, estreita, e paradoxal entre a razão e a loucura; a sua caracterização vacila sempre entre a do sábio e a do louco, tanto pelas observações do narrador, quanto pela perspectiva de outros personagens e o povo em geral. Dificilmente se atribuiria sinceridade às qualidades retratadas do médico sem a marca tingida de ironia evidente, porque o propósito do narrador é suspeito desde o início. Ao basear sua narrativa na informação recolhida de várias crônicas supostamente históricas – embora provavelmente fictícias – o narrador machadiano de “O Alienista” apresenta traços antecipadores da metaficção historiográfica, ao reconstruir o passado através do imaginário. Simão Bacamarte é então diretamente caracterizado como um sábio (“o maior dos médicos”, “um alto espírito, um varão nobre”, um “gênio”, “um grande homem austero”) cuja vocação é cuidar da “saúde da alma [. . .] a ocupação mais digno do médico” (“Alienista” 40). No entanto, ao longo da história há vários indícios indiretos que contradizem essa personificação dissimuladora. Quando surge a idéia da Casa Verde, constata-se que “a idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência [. . .]” (“Alienista” 40). Outros até refletem que “isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo” (“Alienista” 40) ou concluem que a teoria de Simão Bacamarte “era uma obra absurda” (“Alienista” 50), a ponto de indagar desesperadamente: “quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”(“Alienista” 62). Finalmente o próprio médico, na sua condição de sábio, descobre a sua loucura através da auto-análise, e ao formular sua “doutrina nova” conclui que reúne em si mesmo “a teoria e a prática” (“Alienista” 86).


A experiência de Simão Bacamarte serve para ilustrar a incapacidade de definir os limites entre a razão e a loucura, ou de classificá-los sequer individualmente. O seu resultado aponta para a impossibilidade de estabelecer qualquer ciência exata e completa baseada apenas no discurso racional. É evidente que “a loucura de Bacamarte é a loucura da ciência e esta consiste em ignorar seus possíveis limites e suas efetivas articulações” (Lima 265). Acrescenta-se que o nosso sábio-louco sofre da “ânsia de fixação e de univocidade [. . .] no desejo de atingir um único alvo: a Verdade universal e imutável, descontaminada das paixões e da contingência humana” (Secchin 25). O Alienista não consegue cumprir o propósito, como não cabe ao seu discurso realizá-lo, e afinal ele enlouquece pela sua “razão excessiva” (Secchin 28) e morre “sem ter podido alcançar nada” (“Alienista” 86).


O romance Quincas Borba apresenta dois casos em que a loucura resulta de uma preocupação obsessiva com um objetivo inviável. O personagem Quincas Borba, enquanto prega o discurso da razão absoluta, sonha em fundar um sistema de filosofia suprema. O seu ingênuo discípulo e herdeiro Rubião, enquanto procura assimilar-se à sociedade burguesa e urbana do Rio de Janeiro, ilude-se com a grandeza imaginada. Ambos se caracterizam pela megalomania sem limites e pelo discurso irracional, e acabam domados pela demência. O filósofo acaba por acreditar que é a encarnação de Santo Agostinho, enquanto o burguês proclama que é o próprio Napoleão III. Ao longo da história, aliás, se torna cada vez mais evidente que Rubião herdou mais do que o dinheiro e os bens do mestre; ao receber o cão homônimo Quincas Borba, ele é simbolicamente perseguido pelo espírito finado do outro, até sucumbir à sandice também.


Uma leitura de Quincas Borba não deve ser feita sem considerar primeiro o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. O próprio narrador no Capítulo IV nos adverte que o personagem “Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia” (Borba 16). Esta filosofia, como sabemos, nomeia-se “Humanitismo” e pretende desvendar a verdade absoluta e a razão última da existência humana. Uma leitura deliberadamente redutora de Quincas Borba poderia nos afirmar que a história serve como esboço e desdobramento da própria teoria de “Humanitas” na sua manifestação sócio-histórica. Tanto os personagens quanto a ação exemplificam as tendências prefigurados na filosofia, e o que era antes mera abstração torna-se evidente na prática. Como mesmo declara o narrador, ao tentar comprovar com uma história que “as catástrofes são úteis, e até necessárias”:


Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher, - chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.


— É minha, sim, seu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.


— Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?


O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! - Chamava-se Chagas. - Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal aos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, - a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas! (Borba 109-10)


Assim, através dessa anedota irônica, o egoísmo e a indiferença são leis imutáveis e imanentes da natureza e da sociedade burguesa carioca da época.


Enquanto personagem principal, Rubião apresenta aspectos de uma trajetória paralela com a de seu mestre. Como Quincas Borba, é “herdeiro inopinado” e chega a ser “mendigo”. O cão figura como único amigo verdadeiro de ambos, mesmo que Rubião o despreze. É significante que ele também desenvolve sintomas de demência no percurso da vida, por motivos análogos. Vítima de uma sociedade em que quase todas as relações se fundam em interesses econômicos ou políticos, ele não escapa da mediocridade e superficialidade evidentes nesta mesma sociedade, ao demonstrar características de personalidade duvidáveis. O que mais liga Rubião ao Quincas Borba, seja filósofo ou cachorro, é a herança e não a amizade. Rubião, aliás, nunca chega a amar ninguém, uma vez que a sua ingênua paixão pela Sofia não é atendida, o que a torna um objeto de desejo irrealizável. Essa “loucura da paixão desesperada” é possivelmente a “raiz do caso de Rubião, que, inteiramente perdido de amor por Sofia [. . .] desintegra-se num processo de loucura cujo traço dominante é a megalomania” (Senna 89). Como se isso não bastasse para explicar a condição sofrida dele, acrescentam-se outros fatores quando se diz que “a loucura [. . .] implica o abandono e a indiferença dos ‘amigos’” (Senna 75). Certamente é pela convergência desses fatores enumerados com outros menos esclarecidos que se dão a demência e eventual miséria de Rubião.


A loucura de Rubião aproxima a de Quincas Borba por uma analogia estreita e simbólica. Como a trajetória da vida de ambos apresenta algumas semelhanças indiscutíveis, apesar das diferenças óbvias, resta-nos dar um pequeno salto para reparar que um fica “louco” por uma Sofia enquanto o outro perde o juízo por uma filo-Sofia! Para chegar a essa conclusão, é preciso levar em conta que os nomes dos personagens de muitos autores célebres nem sempre são gratuitos; carregam em si um ou vários significados, às vezes óbvios, outras vezes ocultos, ou até mesmo inesperados. Esta interpretação, entretanto, é puramente extra-textual, e tanto baseia-se quanto resolve-se numa leitura extremamente determinista – e, portanto, limitada – que confere ao romance Quincas Borba o papel de mero esboço ou experiência prática da filosofia abstrata do “Humanitismo”.


O legado problemático do “Humanitismo” se deve inteiramente a intrigante figura de Quincas Borba, personagem preeminente na obra de Machado de Assis. Nos dois romances aos quais ele pertence, é ironicamente retratado como grande sábio que aos poucos cede a sua razão edificante à demência decadente. Como Rubião, a loucura dele em parte consiste de uma megalomania quase sem limites, uma vez que Quincas Borba se declara “o melhor homem do mundo” por formular a sua filosofia verdadeira que é, segundo ele, “o remate das coisas” (Borba 19). Desde seu princípio, o “Humanitismo” pretende ser o “sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas” (Cubas 247) enquanto “há de ser também uma religião, a do futuro, a única verdadeira” (Cubas 303). A partir daí expõe-se uma doutrina repleta de teorias e postulados que, embora simulem reflexões metafísicas através de um discurso aparentemente racional, revelam-se absolutamente absurdos e sem fundamento lógico, pelo menos dentro das convenções estabelecidas e prefiguradas pela sociedade vigente da época.


Como explica Quincas Borba, a filosofia de “Humanitismo” vem do conceito de “Humanitas, princípio das cousas” (Cubas 211). Acrescenta-se que:


Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível [. . .] essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é o que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é homem. (Borba 19)

 

Em outras palavras resume-se que “Humanitas [. . .] o princípio das cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens.” (Cubas 247). O “defunto autor” Brás Cubas nos afirma que Quincas Borba concedeu uma influência direta da filosofia hindu ao declarar que “o Humanitismo ligava-se ao Bramanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas diferentes partes do corpo de Humanitas” (Cubas 248). Tanto Brás Cubas quanto o narrador mais tradicional de Quincas Borba mencionam a sua admiração obsessiva por Pangloss, que afinal “não era tão tolo como o supôs Voltaire” (Cubas 306). Este, como se sabe, é uma caricatura do filósofo Spinoza, que idealizava o melhor dos mundos possíveis. No entanto, cabia ao crítico perspicaz determinar que o “Humanitismo” de algum modo satirizava o Positivismo de Augusto Comte, numa “verdadeira caricatura” dele. Acrescenta-se que:


O próprio nome de Humanitismo, com a sua concepção de Humânitas, lembra imediatamente a Religião da Humanidade de Comte e a hipóstase de uma Humanidade em si, acima dos homens, de que essa religião decorre. Nem é menos esclarecedora a circunstância do Humanitismo não ser apenas uma filosofia, mas além disto, ou antes, sobretudo, uma religião [. . .] (Câmara Jr. 99)

 

Tanto Comte quanto Quincas Borba sucumbiram à demência ao ultrapassar os limites da suas respectivas filosofias. Como acrescenta Câmara, o filósofo francês “enlouquecera nos últimos anos, e dessa loucura é que teria resultado a política e religião positivista, como uma excrescência do sistema filosófico em si” (101). O mesmo destino sucedeu ao nosso Quincas Borba, que levou a sua exaltada razão à beira do absurdo.


O “Humanitismo” de Quincas Borba é um projeto irrealizável e uma filosofia inconcebível, uma vez que pretende alcançar a verdade absoluta e a perfeição humana puramente através das aspirações ilusórias de um discurso supra-racional e, portanto, fundamentalmente ilógico. Por ser demasiadamente ambicioso, implica em si uma obsessão excessiva que impulsiona seu propagador aos limites da razão e da sandice. Como diz o filósofo, seu “trabalho, fruto de longo estudo” é “um novo sistema de filosofia, que [. . .] explica e descreve a origem e a consumação das cousas” (Cubas 210), ao mesmo tempo que “retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória (Cubas 211)”. O “monumento” (Cubas 211) filosófico, entretanto, antes implica a exposição do absurdo que a culminação da razão. Algumas das conclusões prefiguradas pelo discurso emblemático são desconcertantes e bastante equivocadas:


esta filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres da vida [. . .] a frugalidade podia indicar certa tendência para o asceticismo, o que era a expressão acabada da tolice humana. (Cubas 236)

nota que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas; não ele é ao mesmo tempo veículo, cocheiro, e passageiro; ele é o próprio Humanitas reduzido; daí a necessidade de adorar-se a si próprio. (Cubas 249)

Sendo cada homem uma redução de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem, quaisquer que sejam as aparências contrárias. (Cubas 249)

[. . .] sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma virtude. (Cubas 250)

A dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão [. . .] uma vez que o homem se compenetre bem de que ele é o próprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento à substância original para obstar qualquer sensação dolorosa. (Cubas 251)

 

O problema do discurso absolutista de Quincas Borba é justamente que excede os limites da razão ao sonhar em formular “a verdade e a felicidade” inequívocas e perfeitas.. Os argumentos constam de silogismos e presunções que sempre contradizem, e até agridem, o senso comum e a ordem racional estabelecida. A partir das suas deduções evidentemente irracionais, conclui-se que a pseudo-lógica empregada é, resumindo, logicamente absurda, e tanto indica como incita à loucura do suposto filósofo.

 

Há certo momento nas Memórias Póstumas de Brás Cubas em que o defunto-autor relata uma cena de frustração e desilusão com o “Humanitismo” do seu mestre e amigo. Ao interromper uma discussão entre ambos, Brás Cubas exclama resolutamente: “Vai para o diabo com o teu Humanitismo [. . .] estou farto de filosofias que me não levam a cousa nenhuma”(Cubas 279). Esta reação inesperada oferece talvez a melhor observação relativa ao sistema de filosofia altamente inútil e ineficaz de Quincas Borba. Esta crítica, porém, problematiza a caracterização do personagem ao longo do romance pelo mesmo Brás Cubas enquanto narrador, que em determinado ponto adverte: “Deus me livre de contar a história do Quincas Borba [. . .] uma história longa, complicada, mas interessante” (236). Não é difícil detectar um tom de ironia, por exemplo, quando considera o “grãozinho de sandice” (Cubas 300) que aflige o amigo filósofo. O narrador revela que “era impossível crer que um homem tão profundo chegasse à demência” (Cubas 302) Mais tarde admira que “não só estava louco, mas sabia que estava louco [. . .] era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava consigo mesmo” (Cubas 306). A ironia e o cinismo dissimulados do “defunto autor” Brás Cubas conseguem, deste modo, desafiar qualquer tentativa de determinar o sentimento verdadeiro que ele guardava pelo velho mestre, apesar das evidências freqüentes de um sarcasmo delirante ao longo da narrativa.

 

III. A Razão da Loucura

 


A figura de Brás Cubas, enquanto narrador e personagem, é bastante curiosa e merece destaque particular. Não há nada que lhe indique qualquer tendência à demência ou característica da loucura como apresentam outros personagens machadianos. Nenhum sintoma de patologia cerebral, nenhum sinal da perda de juízo ou de sanidade mental. O monumental romance Memórias Póstumas de Brás Cubas que esse “defunto autor” escreve, longe de apresentar ilusões ou visões idealistas, revela uma sensibilidade consciente da sua desilusão e realismo. O narrador desde cedo adverte:


[. . .] importa dizer que este livro é escrito com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destrói, não inflama nem regala, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado. (Cubas 16)

 

É conseqüentemente essa relativização do método e da significância da sua obra literária que a distingue da ciência de Simão Bacamarte e da filosofia de Quincas Borba. Somente poderia-se dizer que, ao morrer da obsessão pela sua “idéia fixa”, sofre um destino semelhante aos outros, ao embarcar num projeto irrealizável. O nomeado “emplasto Brás Cubas” pretendia ser “um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade” (Cubas 12). O propósito em si era demasiadamente pretensioso para ser levado a sério, e apesar do narrador assegurar que essa “idéia grandiosa e útil” era a “causa” da sua morte, duvidamos que a confissão seja sincera e acreditável. Ainda mais quando lembramos do fato dele ter morrido de pneumonia, o que era inteiramente comum na época.


É justamente no leito da morte de Brás Cubas onde se passa talvez a cena mais fantástica em toda a obra machadiana. “O Delírio” do Capítulo VII torna-se episódio significante e espetacular por apresentar “sob a forma de alucinação de um personagem” o relato “talvez mais denso em termos de reflexão filosófica” do romance que, em si mesmo, “pode ser compreendido como uma expansão e diversificação de núcleos temáticos propostos, sob a forma explícita ou implícita, no diálogo e no subseqüente desfile dos séculos” (Almeida 80). Acrescenta-se que “neste texto aparece esboçada [. . .] uma verdadeira síntese filosófica do pessimismo de Machado de Assis (Almeida 83). Este “pessimismo radical” se dá por uma ironia que transforma-se “em uma maneira de ver e sentir o mundo, um mundo habitado por contradições insolúveis, no qual todos, o ironista inclusive, estão inescapavelmente inseridos” (Almeida 80). Daí vêm a “falta de sentido da existência” e o “absurdo irremediável da condição humana” (Almeida 81), temas que perpassam a narrativa inteira e afligem Brás Cubas, que não se alivia com a antitética filosofia de Quincas Borba. Convêm ressaltar que, como “um complexo altamente irônico jogo de espelhos, os motivos filosóficos do delírio vão se articular com outro conjunto de motivos, igualmente de ordem filosófica,” quando se refere ao “Humanitismo” (Almeida 83).


É, portanto, altamente irônico que o episódio do delírio apresenta a visão mais lúcida e racional da existência e experiência humana. Ao defrontar-se com a própria Natureza, que também se chama Pandora, Brás Cubas protesta que ela é “absurda [. . .] uma fábula” (Cubas 27). No entanto ela procede a desvendar a sua lei principal, o egoísmo, ao dizer, numa bela alusão ao evolucionismo: “Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação [. . .] eis o estatuto universal” (Cubas 27). Em seguida lhe mostra “uma redação dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas” (Cubas 28). Ao acrescentar que a experiência toda não passava de uma alucinação reveladora, relata-se como:


Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias – , desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça [. . .] a cólera [. . .] a inveja [. . .] a ambição [. . .] a fome [. . .] a vaidade [. . .] a melancolia [. . .] a riqueza [. . .] o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as várias formas de um mal [. . .]. (Cubas 29)

 

Talvez a observação mais significante acerca do ser humano trata da mesma busca do inatingível que destina tantos personagens, inclusive o narrador, ao fracasso:


Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. (Cubas 30)



Finalmente, durante um momento culminante da alucinação, o “grito de angústia” do espectador se transforma curiosamente em um “riso descompassado e idiota” (Cubas 30). Diante do “espetáculo” da vida e do mundo Brás Cubas torna-se estoicamente “tranquilo e resoluto,” ou até talvez “alegre” (Cubas 31). Assim formula uma perspectiva menos pessimista – quase consoladora – em que se resolvem o problema de todas as épocas, e a história da História:


Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões [. . .]. (Cubas 31)

 

IV. A Loucura e a Razão

 

Machado de Assis consegue problematizar os conceitos da razão e loucura ao questionar os próprios limites entre um e o outro. Ele até inverte as relações entre ambos ao contrapor uma razão absurda com uma loucura racional. O sábio assim vira demente, e o louco se torna lúcido. Ou em outras palavras, a lógica sem fundamento pode encaminhar à loucura, enquanto o irracional profundo pode levar à razão. Os personagens machadianos são ambíguos e apresentam ambas as possibilidades simultaneamente. Machado também demonstra como qualquer subjetivação de discursos impossibilita a objetividade. A Razão e a Ciência não são capazes de formular absolutos, que permanecem fora dos seus alcances. Há mistérios da existência humana que não se revelam senão através do sonho e do delírio. E talvez justifique-se esta postura do homem diante da sua experiência individual e vivência social: a do cinismo humorístico com que Machado de Assis cria suas realidades imaginárias, frutos de uma imaginação real.

 

*publicado originalmente em Espelho: Revista Machadiana 8/9 (2006), 81-96.



Bibliografia:

Almeida, José Maurício Gomes de. “A Visão Irônica nas Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Estudos de Literatura Brasileira. Número Especial Nº 4. Rio de Janeiro : Faculdade de Letras/UFRJ,sd. 79-86

Assis, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro :
Expressão e Cultura, 2001.

--- “O Alienista”. Contos Escolhidos. São Paulo : Klick editora, 1997.

--- Quincas Borba. Rio de Janeiro : Ediouro S.A. , sd.

Câmara Jr. Joaquim Mattoso. “Quincas Borba e o Humanitismo”. Ensaios machadianos. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico, 1977. 94-107

Coutinho, Afrânio. Machado de Assis na Literatura Brasileira. Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 1990.

Lima, Luís Costa. “O palimpsesto de Itaguaí”. Pensando nos tópicos. Rio de Janeiro : Rocco, 1991. 253-65

Moisés, Massaud. “‘O Alienista’: Paródia de Dom Quixote?” Machado de Assis: Ficção e Utopia. São Paulo : Cultrix, 2001. 127-140

Secchin, Antonio Carlos. “Linguagem e Loucura em O Alienista”. Estudos de Literatura Brasileira. Número Especial Nº 4. Rio de Janeiro : Faculdade de Letras/UFRJ, sd. 25-29

Senna, Marta de. “Quincas Borba: uma ontologia do abandono” e “Quincas Borba: o homem na cidade”. O olhar oblíquo do bruxo, ensaios em torno de Machado de Assis. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1998. 63-91

 

 
 

gringocarioca.com

(home)

 

Copyright © Marco Alexandre de Oliveira –

All Rights Reserved